Reflexos de um novo ano

No dia 07/01/2026, marquei uma reunião de negócios em um café. Cheguei no horário, e estava fechado. Um aviso simples: “voltamos dia 12”.

Mudei o plano. Fomos para outro café. E, quando cheguei lá, a segunda porta também estava fechada.

Eu não fiquei indignado com o fechamento. Fiquei curioso com o sentido do fechamento. Porque não era 28 de dezembro. Não era “entre Natal e Ano Novo”. Era janeiro andando, gente voltando, agenda reaparecendo. E, ainda assim, duas empresas tinham escolhido começar — ou recomeçar — só na segunda semana.

Na hora, a cabeça vai para o óbvio: “por que alguém faria isso?”. Mas, quando eu saí do meu incômodo e tentei olhar pela lente de quem está do outro lado do balcão, outras hipóteses aparecem.

Talvez seja uma equipe pequena que segurou dezembro inteiro no limite, e a pausa foi a única forma de não quebrar as pessoas no início do ano.

Talvez seja o período em que dá para fazer manutenção, ajustar equipamento, reorganizar estoque, consertar o que ficou empurrado enquanto a casa estava cheia.

Talvez o proprietário tenha calculado que os primeiros dias de janeiro não pagam a operação completa — e fechar por alguns dias é uma decisão de custo, não de preguiça.

Talvez o problema nem seja “férias”: pode ser falta de mão de obra, fornecedor que ainda não normalizou entrega, família, saúde, cansaço acumulado.

Eu não consigo verificar qual era o motivo daqueles dois cafés. E nem preciso transformar isso em julgamento moral — “certo” ou “errado”. O ponto é outro: o efeito prático disso no mercado.

Para mim, naquele dia, significou perda de tempo, remarcação, deslocamento extra. Para a reunião, significou atrito. E atrito, quando se repete, vira uma mensagem silenciosa: “aqui, janeiro não conta tanto”.

Só que, do lado de quem está tentando fazer negócio — vender, comprar, fechar parceria, contratar, ajustar um projeto — janeiro conta. Às vezes, é justamente janeiro que decide o ritmo do trimestre. O começo do ano não é só calendário; é quando muita coisa volta a ter urgência ao mesmo tempo.

E é aí que a cena dos cafés deixa de ser “sobre café”.

Porque existe uma versão dessa porta fechada dentro de muitas empresas. Não na fachada, mas na prática.

A porta fechada é o orçamento que fica para depois.

É a decisão que ninguém assume porque “vamos ver como o ano começa”.

É o contrato que não anda.

É a reunião que não acontece.

É o “me chama na segunda quinzena”.

E isso costuma vir acompanhado de uma crença confortável: “todo mundo está assim”. Como se o atraso virasse normal porque é compartilhado.

Até mesmo o seu cliente resolve te pagar depois porque acha que pode estar te incomodando nas férias…

Só que, na vida real, não existe um acordo coletivo para começar mais tarde. Existe gente que volta mais tarde, existe gente que volta mais cedo. E existe quem não voltou nunca — só está repetindo a mesma frase há anos, mudando o motivo conforme o mês.

Este ano, aliás, a lista de motivos promete ser farta. Copa do Mundo, eleições, o noticiário empurrando ansiedade de um lado e euforia do outro. Sempre dá para encontrar um pretexto “respeitável” para adiar o que incomoda: conversar com sócio, rever preço, reorganizar equipe, cortar o que não faz sentido, formalizar o que está solto.

E aqui eu volto para a imagem concreta do dia 07: eu fiquei diante de duas portas fechadas. Eu consegui contornar, achei outro lugar, segui a vida.

Mas nem todo cliente contorna. Nem toda oportunidade espera. Nem toda conversa volta para a mesa.

No fim, a pergunta que ficou comigo não foi “por que os cafés fecharam?”. Foi esta: na sua empresa, o ano começa quando o calendário vira… ou quando dá vontade, quando dá tempo, quando “o Brasil volta”?

Só que tem um detalhe que a gente esquece quando conta essa história: você pode escolher começar dia 12, mas o mundo não combina isso com você. A rua continua passando gente. A conversa continua acontecendo. O dinheiro continua pedindo decisão. E o mercado continua andando, mesmo quando uma parte dele está fechada.

Você fecha a porta do seu negócio, mas o relógio não fecha junto. E não é só “concorrente”. É o cliente resolvendo a vida dele com quem estava disponível. É o fornecedor ajustando rota. É o parceiro tocando o plano com quem respondeu. E, sim, o país continua produzindo coisas que mexem com empresa — prazos, exigências, decisões, notificações, mudança de entendimento. Você pode estar no modo “ainda é cedo”, mas as consequências do mundo real não ficam em janeiro no modo rascunho.

E aí aparece a parte mais incômoda: sempre tem alguém que se antecipa. E nem sempre é alguém melhor do que a empresa que você tem. Às vezes é só alguém que atendeu. Alguém que respondeu antes. Alguém que estava aberto quando você estava “voltando”. Não porque fez mais bonito — mas porque estava acessível quando a oportunidade passou pela rua.

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