Há algum tempo, comentei sobre os riscos do uso irresponsável da inteligência artificial no Direito. Naquele momento, ainda parecia uma discussão distante para muita gente, quase uma preocupação teórica de quem estava tentando antecipar problemas. Agora, já temos notícia concreta de advogadas multadas em razão do uso de prompt injection em uma petição, com a inserção de comando oculto destinado a interferir na leitura de sistemas de IA utilizados no ambiente judicial. Segundo a cobertura do JOTA e do Migalhas, o caso envolveu multa de aproximadamente R$ 84 mil e discussão sobre má-fé processual, dignidade da Justiça e tentativa de manipulação tecnológica dentro do processo.
O episódio merece atenção não apenas pelo fato em si, mas pelo que ele revela sobre o momento que estamos vivendo. A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar o centro das conversas profissionais, empresariais e jurídicas. Escritórios, empresas, departamentos, consultores e fornecedores passaram a falar sobre automação, produtividade, agentes inteligentes, análise documental, atendimento automatizado, geração de peças, elaboração de contratos, organização de dados e tomada de decisão assistida por tecnologia. Tudo isso pode ser relevante. Tudo isso pode representar ganho real. Mas nada disso elimina a necessidade de critério, responsabilidade, profundidade e domínio técnico sobre aquilo que está sendo feito.
O problema é que toda novidade de mercado também produz seus surfistas. Pessoas que aprendem meia dúzia de expressões, dominam a estética da inovação, sabem vender urgência e passam a oferecer soluções mágicas para problemas complexos. De repente, todo mundo parece estar atrasado. O advogado que ainda está estudando a aplicação correta da IA sente que perdeu o bonde. O empresário que ainda não automatizou sua empresa sente que está ultrapassado. O escritório que não implantou um “agente inteligente” começa a achar que está ficando para trás. E é exatamente nesse ambiente que nasce o FOMO profissional: o medo de estar fora da próxima grande transformação.
Esse medo é perigoso porque reduz a capacidade de julgamento. Quando alguém chega com uma “ideia maravilhosa”, embalada em linguagem tecnológica, prometendo eficiência imediata, redução de custo, escala e inovação, muitos profissionais deixam de fazer as perguntas essenciais. Qual é o problema que está sendo resolvido? Quais dados serão utilizados? Qual é o limite da ferramenta? Quem valida o resultado? Quem responde pelo erro? Qual é o risco jurídico, ético, reputacional e operacional do projeto? A solução está integrada à realidade da empresa ou apenas reproduz uma tendência de mercado? Existe governança ou apenas entusiasmo?
A inteligência artificial exige domínio de uma nova linguagem. Isso é verdade. Quem atua no Direito, na gestão ou na atividade empresarial precisa compreender como essas ferramentas funcionam, quais são suas possibilidades, seus limites e seus riscos. Não se trata mais de escolher entre usar ou não usar IA. A questão relevante é como usar, em que contexto usar, com qual nível de revisão, com qual responsabilidade e com qual consciência sobre os impactos da decisão tomada com apoio tecnológico.
Mas dominar essa nova linguagem não significa fazer tábula rasa do conhecimento acumulado que constitui aquilo que chamamos de humanidade. A IA não revoga a técnica jurídica. Não substitui a prudência. Não elimina a experiência. Não transforma superficialidade em estratégia. Não converte improviso em inovação. Não torna dispensável o estudo, a reflexão, a ética, a leitura crítica e a capacidade de compreender contextos humanos, empresariais e institucionais.
Existe uma diferença profunda entre usar tecnologia como instrumento de ampliação da capacidade profissional e usar tecnologia como atalho para parecer sofisticado. No primeiro caso, a IA potencializa repertório, acelera tarefas, organiza informações, amplia perspectivas e ajuda o profissional a entregar melhor. No segundo, ela apenas mascara a ausência de método, de critério e de responsabilidade.
O caso do prompt injection no Judiciário brasileiro é simbólico porque mostra que a tecnologia não cria apenas novas oportunidades. Ela também cria novas formas de erro, abuso e ilusão. E, quando essas práticas entram em ambientes sensíveis como o processo judicial, a empresa, a advocacia ou a tomada de decisão estratégica, o problema deixa de ser apenas técnico. Passa a ser institucional.
A pergunta, portanto, não é se a inteligência artificial será importante. Ela já é. A pergunta é se vamos utilizá-la com maturidade ou apenas repetir o comportamento típico de quem transforma toda novidade em produto milagroso.
Para escritórios e empresas, talvez o ponto mais importante seja este: inovação sem profundidade não é inovação. É risco com aparência moderna. A IA pode ser uma aliada extraordinária, mas somente quando inserida dentro de uma cultura de responsabilidade, governança, revisão humana e domínio técnico. Caso contrário, ela apenas acelera aquilo que já era frágil antes dela existir.


