Conversas difíceis

O custo do silêncio

A maioria dos conflitos societários que chegam ao meu escritório não começa com traição, fraude ou má-fé. Começa com algo muito mais comum — e muito mais silencioso: assuntos importantes que ficaram para depois. E “depois” nunca chegou.

Uma saída de sócio que ninguém queria discutir porque parecia pessimismo. Uma desigualdade de dedicação que ninguém nomeava porque parecia acusação. Um planejamento sucessório que a família adiava porque parecia falar de morte. Uma divergência de visão que o sucesso revelou quando já era tarde demais para resolvê-la sem custo.

Antes do contrato, antes do acordo de sócios, antes do advogado — existe uma conversa. Uma conversa que a maioria dos empresários evita. E que, quando finalmente acontece, quase sempre acontece tarde demais.

O conflito societário não começa quando um sócio age de má-fé. Começa quando dois sócios de boa-fé acumulam silêncios por tempo demais.

Um livro que todo empresário deveria ler

Douglas Stone é professor de Harvard e um dos principais negociadores do Projeto de Negociação da universidade. Junto com Bruce Patton e Sheila Heen, escreveu Conversas Difíceis — um livro que, na superfície, parece tratar de comunicação interpessoal. Mas que, na prática, é um manual sobre como os conflitos humanos nascem, crescem e se tornam irreversíveis.

A premissa central é simples e poderosa: toda conversa difícil — uma demissão, uma separação societária, uma cobrança entre sócios — é na verdade três conversas acontecendo ao mesmo tempo. E quando não reconhecemos isso, tratamos apenas da superfície. O problema real fica intacto, acumulando pressão.

As três conversas simultâneas

A conversa sobre o que aconteceu

Cada parte tem uma versão diferente dos fatos. E cada uma acredita, com convicção genuína, que a sua versão é a correta. O problema não é que alguém está mentindo. É que memória, interpretação e perspectiva são sempre parciais — e raramente coincidentes.

A conversa sobre os sentimentos

Emoções que não são nomeadas não desaparecem. Elas aparecem depois como agressividade passiva, distância, ou — no caso empresarial — como decisões unilaterais, ausências em reuniões, ou retiradas irregulares de caixa.

A conversa sobre identidade

A mais profunda e a menos percebida. Toda conversa difícil toca em quem eu sou: sou uma pessoa justa? Sou competente? Sou reconhecido pelo que faço? Quando a identidade de alguém se sente ameaçada, a racionalidade vai embora — e entra o instinto de defesa.

Quando essas três camadas não são reconhecidas e tratadas, a conversa explode. Ou, pior: não acontece. E o silêncio acumula juros — até virar uma ação judicial.

As conversas que empresários evitam

Depois de anos assessorando empresas e famílias em conflitos societários e planejamento patrimonial, aprendi a reconhecer um padrão: os conflitos mais caros não nascem de fraude. Nascem de assuntos que as partes adiaram por desconforto.

1. A saída do sócio — a conversa que ninguém quer ter porque parece pessimismo

Ninguém abre uma empresa pensando em como vai sair dela. Falar sobre saída, nos primeiros anos, parece traição — como se discutir divórcio na lua de mel. Mas o momento da saída chega para todos: aposentadoria, desentendimento, novas prioridades, problemas de saúde.

Quando esse momento chega sem ter sido discutido antes, o custo é imenso: avaliação de quotas disputada ponto a ponto, apuração de haveres sem critério definido, anos de processo.

“Nunca imaginei que um dia precisaríamos discutir isso.” — frase que ouço antes de metade dos processos societários que assumo.

A conversa que evitaria essa situação não é sobre números. É sobre expectativas:

•         Quanto tempo cada um pretende permanecer na empresa?

•         O que acontece se um quiser sair e o outro não?

•         Quem define o valor da quota — e com base em que critério?

•         Existe alguma situação em que a saída seria compulsória?

•         Há cláusula de não-concorrência? Por quanto tempo? Em que mercado?

Essas perguntas têm respostas diferentes para cada sócio. E é exatamente por isso que precisam ser respondidas antes — não no momento em que alguém já está com um pé fora da porta.

2. A desigualdade de dedicação — a conversa que vira ressentimento silencioso

Um sócio chega às 7h e sai às 20h. O outro aparece três vezes por semana. Ambos recebem o mesmo pró-labore e distribuem o mesmo percentual de lucros. O ressentimento começa no primeiro mês. Mas ninguém fala nada — falar seria acusatório, seria “criar problema”.

E aí vem a parte mais interessante do modelo de Stone: cada sócio tem uma história completamente diferente sobre o que está acontecendo.

O sócio que trabalha 12 horas pensa: “Eu carrego essa empresa. Ele aparece quando quer e ganha igual a mim. Isso é injusto.”

O sócio que aparece menos pensa: “Minha contribuição é estratégica. Sou eu que trago os clientes grandes e mantenho as relações que sustentam o negócio. O fato de não estar aqui todos os dias não significa que não estou trabalhando.”

Adivinha? Nenhum dos dois está completamente errado. O problema é que essa conversa — sobre o que cada um valoriza na contribuição do outro — nunca aconteceu de forma explícita.

Quando o assunto finalmente vem à tona, já não é uma conversa. É uma acusação. E acusações não resolvem sociedades — as destroem.

•         O que cada sócio considera dedicação adequada ao negócio?

•         Como medimos contribuição — por horas, por resultado, por relacionamento, por capital?

•         Existe um modelo de remuneração que reconheça contribuições diferentes?

3. A sucessão familiar — a conversa que parece falar de morte

Esta é a mais difícil de todas. Envolve dinheiro, herança, poder — e família. O patriarca fundador não quer parecer que está pensando em morrer. Os filhos não querem parecer que estão esperando a herança. E assim a empresa fica décadas sem planejamento sucessório — porque ninguém quer ser o primeiro a ter esse papo.

Quando finalmente chegam ao escritório, o quadro que encontro quase sempre é este: o fundador tem 70 anos, há três filhos envolvidos (mas apenas um realmente trabalha na empresa), existe um genro que “sempre ajudou” e nunca foi formalizado, e há quotas distribuídas de forma que não reflete mais a realidade da família nem do negócio.

O planejamento sucessório adiado não é apenas um problema jurídico. É o resultado de uma conversa que a família não conseguiu ter — sobre quem ama quem o suficiente para dizer coisas difíceis enquanto ainda há tempo.

•         Quem, entre os filhos, tem vocação e desejo de continuar o negócio — e quem preferiria ser compensado de outra forma?

•         O que acontece com as quotas em caso de falecimento, incapacidade ou divórcio de um dos herdeiros?

•         Como a empresa vai tratar os herdeiros que trabalham nela de forma diferente dos que não trabalham?

4. O sucesso — a conversa que ninguém imagina que precisa ter

Esta é a menos óbvia — e, por isso, a mais perigosa. A empresa vai bem. O faturamento cresceu. Os lucros estão aparecendo. E é exatamente nesse momento que os sócios começam a querer coisas radicalmente diferentes.

Um quer reinvestir tudo e crescer agressivamente. O outro quer distribuir lucros e estabilizar. Um quer abrir novos mercados. O outro quer vender a empresa enquanto está valorizada. Um quer trazer um investidor externo. O outro não abre mão do controle.

O sucesso, paradoxalmente, é um dos maiores geradores de conflito societário — justamente porque revela divergências de visão que a luta pela sobrevivência mantinha ocultas. Quando a empresa era pequena e todos precisavam um do outro, as diferenças eram toleradas. Quando ela cresce, cada sócio começa a imaginar o que faria se não precisasse do outro.

A crise societária mais difícil de resolver não é a que nasce do fracasso. É a que nasce do sucesso — porque ninguém se prepara para ela.

As perguntas que precisariam ter sido feitas muito antes:

•         Qual é o tamanho de empresa que cada sócio quer construir — e por quê?

•         Distribuir ou reinvestir? Qual é o critério de decisão quando os dois discordarem?

•         Em que condições cada sócio estaria disposto a vender sua parte — ou a empresa inteira?

•         O que é sucesso para cada um? Crescimento, estabilidade, impacto, liquidez?

Essas perguntas raramente aparecem no contrato social. Raramente aparecem em qualquer documento. E raramente aparecem em qualquer conversa — até o dia em que a divergência é grande demais para ser ignorada.

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Como iniciar essas conversas sem destruir a relação

Stone oferece um caminho concreto — e que vai na contramão do instinto natural. Em vez de chegar com “você está errado” ou “precisamos conversar sobre um problema”, a proposta é começar de um lugar de curiosidade genuína.

A frase de abertura muda tudo. Compare:

“Você não está cumprindo o que combinamos” — acusação que ativa defesa.

“Preciso entender melhor como você está enxergando nossa divisão de responsabilidades” — convite que abre diálogo.

A diferença não é apenas de tom. É de intenção. A primeira frase pressupõe que você já sabe o que aconteceu, o que o outro sentiu e quem tem razão. A segunda reconhece que existem pelo menos duas perspectivas válidas — e que você quer entender a outra antes de apresentar a sua.

Algumas perguntas que funcionam como ponto de partida:

•         “Como você enxerga seu papel na empresa daqui a cinco anos?”

•         “Se você pudesse redesenhar nossa sociedade hoje, o que mudaria?”

•         “Quando você pensa no futuro da empresa, o que mais te preocupa?”

•         “O que é sucesso para você — daqui a dez anos, o que você quer ter construído?”

Essas perguntas não resolvem o problema. Mas abrem a conversa antes que ela precise ser resolvida num processo.

Quando você precisa de um advogado

Preciso ser direto: não estou dizendo que o trabalho jurídico é dispensável. Estou dizendo que ele funciona melhor — e custa menos — quando as partes já fizeram o trabalho humano antes.

Um acordo de sócios redigido depois de uma conversa honesta é mais completo, mais realista e mais respeitado. Porque reflete intenções que foram expressas claramente — não pressupostos que cada parte leu de forma diferente.

Uma holding familiar estruturada com as intenções de todos claras na mesa evita anos de disputa futura. Um planejamento sucessório construído a partir de diálogo aberto tem muito mais chances de ser efetivamente cumprido. E um pacto societário que contempla os cenários de sucesso — não apenas de crise — é o que separa uma sociedade duradoura de uma bomba-relógio bem-sucedida.

O advogado preventivo não substitui a conversa. Ele a organiza, a formaliza e a protege juridicamente. A conversa vem antes. Sempre.

Mas preciso ser honesto sobre algo que não costumo ver escrito: o roteiro de perguntas que apresentei aqui é mais difícil do que parece. Fazer essas perguntas para um sócio que também é amigo, para um pai que fundou a empresa com as próprias mãos, ou para um irmão com quem você divide memórias e capital — não é simples. Há histórias em jogo. Há orgulho. Há medo de parecer desconfiado, ganancioso ou ingrato.

É por isso que, muitas vezes, o papel do advogado não é apenas o de redigir o contrato depois da conversa. É o de conduzir essa conversa. Um profissional de fora da relação, sem lado a tomar e sem história pessoal com nenhuma das partes, consegue fazer as perguntas difíceis com uma neutralidade que os próprios sócios raramente conseguem entre si.

Às vezes, a melhor conversa que sócios podem ter é aquela mediada por alguém que não precisa ser diplomático com nenhum dos dois — apenas honesto com todos.

Se as perguntas deste artigo parecem impossíveis de fazer sozinho, talvez não sejam para ser feitas sozinho.

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